segunda-feira, 26 de maio de 2014

Caminho das Missões - 2º dia - da Fazenda Ibrisch a São Nicolau

O segundo dia amanheceu completamente nublado. E o que íamos perceber depois é que aquilo ia durar até o meio dia. 
Tomamos o café da manhã na fazenda Ibrisch e nos despedimos da Fernanda, pegando novamente a estradinha. Estava fresquinho, mas não chegava a fazer frio. A distância prevista para o dia era de 69 km e iríamos conhecer nosso primeiro sítio arqueológico, em São Nicolau.
O registro a seguir foi feito numa barragem:
As marcas das chuvas da semana anterior permaneciam em todos os lugares. Eu só esperava é que não encontrássemos mais enchentes ou poças para atravessar...
Uma das coisas mais agradáveis dos trechos com vegetação é a companhia dos pássaros, constante. Neste aqui, um bando de pica-paus...
Cruzamos neste trecho com um caminhão branco. Eu estava à frente, passei por ele e continuei. Mas, o motorista falou com a Eros e ela parou. Era o mesmo caminhão que estava parado naquele trecho de enchente que comentei ontem. Eles esperaram a água baixar e conseguiram atravessar o alagamento por volta de 1 hora da tarde. Como trabalhavam na região, perguntamos se conheciam D. Preta, uma senhora que é citada no roteiro do Caminho como "pessoa atenciosa, que gosta de conversar com os peregrinos". Mas nos disseram que ela não estava em casa. Agradecemos, despedimo-nos e prosseguimos.
A umidade da neblina era tanta, que produzia gotículas nos pelos dos braços:
O pneu traseiro de minha bicicleta estava um pouco murcho e eu tinha preocupação com as pedras que poderiam, numa passagem mais forte, furar a câmara de ar, ao pressioná-la contra o aro. Procurava um lugar onde pudesse enchê-lo e encontramos finalmente na Comunidade de São José Velho, 18 km depois. No posto de gasolina, tentamos encher o pneu, mas quem disse que o adaptador do bico se abria? A água do dia anterior havia iniciado um processo de ferrugem e o adaptador metálico do bico fino estava travado. Mesmo com toda a força de minhas mãos, não conseguia abri-lo. Precisávamos de um alicate e eu não o tinha entre minhas ferramentas. Próximo do local havia uma oficina e ali, com a preciosa ajuda do proprietário, conseguimos soltá-lo e encher o pneu, felizmente. E colocar um óleo para evitar que voltasse a emperrar. 
Não havia no roteiro do dia indicação de local para almoço, por isso procuramos saber se ali poderíamos comprar alguma coisa para comer mais tarde. A única coisa que tinham eram pastéis. Nada de sanduíches ou refeições. Então, compramos dois, dos grandes, reabastecemos as garrafas de água e prosseguimos:
Para nossa agradável surpresa, logo a seguir passamos por um trecho de estrada completamente sem pedras. Que bom se continuasse assim:
Quando deu fome, paramos para comer. Na beira da estrada mesmo. Depois do pastel, uma maçã de sobremesa...
Prosseguimos em direção a um local conhecido como Barreiro, nome dado por causa do barro cujas propriedades são tidas como medicinais. Chegamos então a uma mata:
No meio da mata, com as marcas da última enchente bem nítidas nas árvores, local conhecido como Pontilhão do Barreiro:
E as surpresas continuam. Com esta visão aí, parei a bicicleta e fiz a Eros parar também. Tranquilamente a cobra tomava sol e nem se mexeu com a nossa presença. Ficamos com receio de passar do lado, afinal, que reação poderia ter o bicho? Tentei espantá-la jogando pedacinhos de terra, mas não esboçou a menor reação. Então, decidimos passar com cuidado e foi isso que fizemos. Mais uma vez, felizmente, nenhuma reação!
Uns 3 km à frente chegamos à propriedade do Sr. Chico, onde o roteiro do caminho sugere ser "um bom lugar para descansar e tomar banho no rio Uruguai ou fazer um passeio de barco". Tomar banho nesse riachinho aí? Huh, tô fora! Descansar e andar de barco, não teríamos tempo. Acabamos nem parando!
A partir daí o caminho envereda pelo campo. Atravessamos uma porteira de arame e madeira e seguimos. Este trecho a Eros diz que é para reencontrar e falar com os duendes: 
 Prosseguimos pela trilha, cada vez mais rústica, desviando das poças: 
Então, nos deparamos, maravilhados, com este trecho onde se espalhavam singelamente em grande quantidade pequenas flores amarelas e cor de rosa:
O local, muito bonito, precisava ficar registrado:
Um pouco mais à frente, mais um campo colorido, desta vez, totalmente cor de rosa:
Os trechos bonitos do caminho a gente ia gravando:
Tivemos uma pequena confusão, quando um mata burro citado no roteiro não foi encontrado. Trata-se de um trecho que antecede a chegada à casa do Sr. Ramão, que dá apoio ao caminho. Por não encontrarmos o mata burro na distância citada pelo roteiro e por visualizarmos outro, uns 500 metros à frente, passamos direto pela casa, que fica afastada da estrada, à direita. Só víamos uma outra casa, à esquerda, depois do outro mata burro. Só resolvemos o problema depois de bater e perguntar na segunda casa. Uma senhora gentilmente nos mostrou onde era a casa do Sr. Ramão e então pudemos perceber a causa de tudo: o tal mata burro do roteiro não existe mais. 
De volta ao caminho certo, continuávamos registrando os trechos mais bonitos:
Muitas vezes são citados trechos muito curtos no roteiro e não dava para ficar parando o tempo todo para marcar os já percorridos. Então, quando parávamos, várias vezes não sabíamos exatamente onde estávamos. Assim, certas coisas citadas no roteiro a gente nem localizava. Mas, era impossível não identificar a "barca dos crentes", quando chegamos nela. Ela é utilizada, pelo custo de R$5,00, para atravessar o rio Piratini. Sem motores, sem ninguém puxando, o que move a balsa é a força da correnteza. Vejam na foto: a parte de trás da balsa é deixada mais afastada do cabo de aço guia e a parte da frente fica mais próxima. A água, batendo no costado da balsa, a impulsiona para a frente, enquanto o condutor, tranquilamente, só observa. Para voltar, ele reduz a distância onde era mais larga e alarga onde era estreita. A balsa fica em posição obliqua, ao contrário da que mostra a foto, com a parte voltada para a margem oposta pertinho do cabo guia e a outra parte mais afastada. Bem simples, ecológico e eficiente, não é?  
Chegamos em São Nicolau por volta de 5 horas da tarde e por estarmos com muita fome, fomos direto ao Restaurante do Dito, citado no roteiro. Fomos recebidos por Dona Cleida, que nos disse que não esperava ninguém, pois não tinha sido avisada de nossa chegada. Perguntamos se ela tinha alguma coisa para comermos, afinal não havíamos almoçado. Ela disse que poderia nos fazer cachorros quentes, o que concordamos rapidamente. Para o jantar, mais tarde, ela disse que só poderia preparar pizza, pois, por não ter sido avisada, não tinha outras coisas para cozinhar. Sem alternativa, concordamos também e marcamos para as 8 horas da noite. 
Depois de comer os sanduíches, fomos para a Pousada dos Jesuítas, onde o caminho havia reservado nosso pernoite. Fizemos o check in, tomamos banho e saímos para conhecer a cidade. 
Já havia anoitecido e então acabamos chegando a um pequeno museu, que estava aberto e iluminado, contrastando com a luz pouco eficiente das ruas. Ali conhecemos Ana Paula, Secretária Municipal de Turismo do município, que foi extremamente gentil e nos contou muito sobre a história missioneira:
Disse que estava nos esperando, por isso permanecera com o local aberto. Então ela foi nos mostrando o local e explicando que os índios guaranis já trabalhavam a madeira e a pedra, mas nas reduções jesuíticas tornaram-se exímios entalhadores. 
O arenito, uma pedra que existe abundantemente na região, era usada na estrutura das construções e nela eram entalhados os nichos, relevos, estátuas e balaustradas que decoravam as construções. 
Também esculpiam peças tais como pias batismais, lavatórios, pias de água benta, relógios solares e fontes, muitas vezes cheios de motivos barrocos.
Na concepção de um artista, a Redução de São Nicolau deveria ter sido assim:

Infelizmente, as ruínas em São Nicolau foram saqueadas e as pedras e utensílios tiveram várias destinações, inclusive foram usadas por moradores da cidade atual para construir casas. Quando se começou a falar em preservação,  cobriram as paredes com reboque para encobrir as pedras. Sabe-se disso pela grossura das paredes, não porque alguém tenha admitido. 
Esta era uma pia em formato semi-circular, decorada interna e externamente com motivos de ramos, folhas e flores e que possui, na base, encaixe para pedestal:
Nesta foto, pedras que utilizavam em baladeiras e tipos de piso que fabricavam e usavam em suas construções:
Alguns formatos de pisos que produziam:
Eram também ótimos artesãos na tecelagem de algodão e lã, além da elaboração de objetos de argila, madeira e metal:
Conforme combinado, jantamos aquela noite no Restaurante do Dito, degustando a pizza preparada por Dona Cleida e com a companhia da Ana Paula:
No dia seguinte, de manhãzinha, antes de sair para o pedal, visitamos, em companhia da Ana Paula, o que sobrou das ruínas da Redução de São Nicolau:
Vejam que curioso. encontramos neste e em outros sítios esta situação. Uma árvore cresce e "engole" uma parede de pedra:
Em São Nicolau, muito pouca coisa sobrou do que era a Redução Jesuítica e está localizada bem na praça central da cidade:
A única coisa que restou sem destruição foi a adega dos padres (próximas duas fotos):
A prefeitura protegeu o local que permanece tal como era:
Na igreja da cidade estão três imagens que foram salvas. Vejam a riqueza dos detalhes e as expressões dos rostos, obras de verdadeiros artistas...


2 comentários:

  1. Poxa vida, estava aguardando o segundo dia.
    Foi mais tranquilo que o primeiro, mas é uma pena estar tão devastado por conta das chuvas... o mais bacana é que quando se tem este otimismo presente, fazemos a viagem valer a pena e é isso que estou sentindo!
    Obrigada por compartilhar

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  2. Claudia,
    De fato, foi mais tranquilo, felizmente. São muitas emoções, não é?
    E ser otimista faz parte do nosso jeito. Se não a gente emperra... Como ter forças para enfrentar as adversidades dos caminhos se não tivermos certeza de que vamos chegar bem?
    Obrigado por acompanhar!

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