quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Caminho dos Anjos - 7º dia - do Espraiado do Gamarra a Caxambu

Estupendamente atendidos pelo Nadinho, na Pousada do Espraiado do Gamarra (foto), passamos uma noite muito tranquila, embora o local esteja bem em frente à estrada, porque não há praticamente nenhum trânsito depois que escurece.  Conversamos durante um bom tempo com o Nadinho, gente finíssima, que é responsável pelo lugar. Ali, numa pequena área de terras, ele cria galinhas, patos e cães para venda e tem até um jumentinho que comprou para sua neta, além de cuidar do bar/restaurante e servir os frequentadores do espraiado, que afluem em grande número em dias propícios, especialmente fins de semana e feriados.


O motivo do nome do lugar você pode ver na foto seguinte: o rio forma um grande poço, com areia em uma das margens, oferecendo aos frequentadores uma pequena prainha. Segundo o Nadinho, lota de gente nos dias quentes.


Quem quiser atravessar o rio para ir à prainha, tem essa pinguela com corrimão, um pouco abaixo, no rio. Se não, é só ir nadando...


Há outra passagem sobre o rio, mais abaixo ainda, próximo a uma fazenda. É uma ponte de madeira, de vão bem longo, que dá acesso à propriedade.


A fazenda, por sinal, é muito bonita, cercada de verde:


Cena corriqueira neste Caminho dos Anjos: a estrada, margeada por belas árvores que se fecham no alto, formando um arco natural para o privilegiado passante: 


Tudo isso acontece antes de Baependi, onde fomos atendidos com cortesia e efetividade pelo pessoal do Auto Posto Baependi. Cruzamos a cidade, cuja Câmara Municipal fica sobre a Estação Rodoviária e seguimos em direção a Caxambu. Os primeiros 5,5 km após Baependi são horríveis. Você passa por uma estradinha de terra, reforçada com restos de construção civil, péssimos para bicicleta e com certeza, para pedestres. Montes de lixo e entulho por toda parte, sujeira, mal cheiro, enfim, o pior e mais feio trecho de todo o Caminho. Isto reduziu a quantidade de fotos que tiramos, pois não havia nada a recordar deste pedaço do Caminho. Chegamos até a pensar que havíamos errado o roteiro, tal o contraste deste trecho com os outros que percorremos. Felizmente, chegamos a Caxambu, onde ficamos hospedados no Hotel Bragança, local em que já estavam o Rodrigo e o Célio, que vieram mais cedo, de Baependi, onde haviam ficado no dia anterior, para consertar a bicicleta.
A cidade conserva ainda o belo parque que todo mundo conhece, com suas águas de funções medicinais. Entre os turistas que tivemos contato, diria que a quase totalidade é de idosos.
A foto abaixo, que encerra o dia de hoje, mostra as carruagens, ou seja lá como se pode chamar estes veículos de tração animal, usados para passeios turísticos pela cidade:


Amanhã, oitavo dia, vamos a São Lourenço. Vejam no próximo blog.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Caminho dos Anjos - 6º dia - da Cachoeira dos Garcias ao Espraiado do Gamarra

Se ontem eu disse que o dia foi duro, o de hoje foi duríssimo. Um dos mais difíceis que eu já enfrentei, dentre todos os caminhos que já percorri. No pior aclive, tivemos que subir cerca de 150 metros em 1 km! Saímos bem tarde, às 10:20 h, porque estava muito frio de manhã e totalmente nublado, um nevoeiro digno de filmes de terror. Aguardamos melhorar a claridade do dia e esquentar um pouco, para sairmos. De início, só subidas. Subimos 230 metros em pouco mais de 2,5 km, para atingir o ponto mais alto do Caminho dos Anjos, em 1900 m de altitude, dentro do parque da Serra do Papagaio. Neste trecho, o Rodrigo fotografou este gavião:

Preparando uma descida sobre o calçamento de pedras:

Depois foram cerca de 10 km de descidas, dificílimas, ora em calçamento de pedras, muito íngremes, ora em estrada de terra, com muitas pedras porosas recortando o terreno. Buracos, declividade forte, perigos constantes. Mas a paisagem era fascinante:

Aspecto da descida, podendo ser observado o estado difícil do piso:

Aproveitando o cimento à beira da sarjeta para evitar a forte trepidação da descida no calçamento de pedras:

Um bonito trecho do caminho: estradinha lisa, arborizada.

Vejam na sequência, quatro fotos do Caminho que a gente nem explica, só admira...




Mais uma visão muito linda do Caminho nesta etapa:

A variedade vegetal: neste trecho, samambaias gigantes.

"Laranja madura, na beira da estrada, tá bichada ou tem marimbondo no pé". Foi só avistar a árvore carregada de frutos maduros e o Célio já cantou a tradicional canção. Que, infelizmente para nós, estava certa: as laranjas eram da espécie "da terra", aquelas que se usam para fazer doce.

Aí, o pior. Segundo o Célio, era uma “ladeira íngreme”, tal a inclinação da subida. Nenhuma chance de pedalar, era só empurrar, mesmo. Muitas pedras grandes desalinhadas, sobre o leito carroçável, colocadas ali para melhorar o piso para os automóveis, porém com a ação das enxurradas, só fizeram tornar o tráfego um exercício de paciência. Uma subida terrível, a mais longa e íngreme ao mesmo tempo que já percorremos. Então chega-se ao "Vale da Cura":

Chegamos à Fazenda Rosa, para tomar um lanche, às 3 h da tarde. Um pouco antes de chegarmos ali, a bicicleta do Célio quebrou (macaquinho do câmbio), tornando inviável para ele continuar o Caminho. Tomamos um lanche de omelete, queijo e guaraná, antes de continuar. O Célio e o Rodrigo foram de caminhonete para Baependi, para concertar a bicicleta e Eros e eu seguimos pedalando. Mais um trecho de cerca de 1 km de subida forte e depois alternamos descidas, pequenas subidas e trechos de pequena inclinação, até a chegada ao Espraiado do Gamarra, às 17 horas. A imagem da foto mostra um trecho do rio que forma uma prainha natural, a qual os moradores da região utilizam como área de lazer.

Com isto, 24 km depois, encerramos o 6º dia. Amanhã tem mais.

Caminho dos Anjos - 5º dia - de Aiuruoca (Estalagem do Mirante) à Cachoeira dos Garcias

Dia de árduas subidas, saímos de 1.141 metros de altitude para 1.760 metros. Alguns trechos são tão íngremes que são calçados com pedras, pois é difícil até para os carros subir. Total do dia, 18.9 km. Estou escrevendo aqui ao som do canto das siriemas que se "esguelam" no morro, vendo pela janela do chalé uma tezourinha assentada no galho seco, com seu piado característico e primaveras muito floridas, nas cores rosa e laranja, preenchendo todo o espaço visível. 

Saímos às 8:45 h da Estalagem do Mirante, após lauto e delicioso café da manhã, servido pela Edi e pelo Gilberto, os proprietários do local. Ontem à noite, após o jantar, ficamos conversando todos na cozinha, onde o jantar é servido com as panelas sobre o fogão de lenha. Nesse bate-papo totalmente informal, acabam surgindo máximas muito divertidas, como esta do Gilberto, enquanto comentávamos os mais diversos assuntos: “as mulheres não perdem oportunidades de ficarem viúvas”!

Conforme combinamos no dia anterior, seguiríamos de bicicleta até Aiuruoca,m onde as deixaríamos na oficina do José Maria, para uma ligeira limpeza e ajustes nas marchas e freios, pois o Caminho tem sido muito “áspero ‘ e tem provocado desajustes nas funções das bikes.
E assim fizemos. Logo após a descida inicial de 1.200 metros, cruzamos o rio Aiuruoca (“casa do papagaio”, em tupi guarani) e no início da subida, vislumbramos a ponte pênsil da foto:

Após deixar as bicicletas na oficina, de onde seriam levadas pelo Gilberto, de caminhonete, para a pousada na Cachoeira dos Garcias, seguimos a pé até a casa da Madalena que, com o Alexandre, são  os organizadores do Caminho dos Anjos.  Depois compramos um chapéu de palha e seguimos. No caminho, ao passarmos defronte uma casa de antiguidades, o Célio, com seu eterno bom humor, saiu-se com esta: “eu não entro nestas lojas de antiguidades. Tenho medo que não me deixem sair...” Passamos, depois por um casarão de 1898, a casa da Dona Maria Júlia (foto) que, curiosamente, exibe em sua parede externa, várias placas contendo poemas, pensamentos e poesias.


Veja uma foto mais de perto, mostrando algumas das placas da parede:

Estávamos ainda no início da caminhada a pé, no 5º dia, cerca de 200 metros da cidade, quando o Gilberto nos alcançou com a caminhonete que transportava as bicicletas:

Continuamos subindo e uns 2 km depois chegamos ao asfalto. Caminhamos por cerca de 1.200 metros e entramos à esquerda, numa estrada de terra, que conduzia ao Parque Estadual Serra do Papagaio. Um pouco à frente, a visão de Aiuruoca era assim:


Vejam, agora, um dos trechos que é calçado com pedras, conforme falamos anteriormente:

Logo acima havia uma montanha de pedras. Íamos passar agora ao seu pé, mas logo à frente, continuando a subida, chegaríamos ao nível de seu topo.

O mineiro Oranice Franco assim escreveu sobre Minas Gerais: "O mar chora e brame em dóridos ais, só porque não banha Minas Gerais". E nós caminhávamos pelas montanhas da Mantiqueira, continuando a circular a do Bico do Papagaio:

Ainda subindo, avistamos a pousada (a casa verde na foto) e a queda d'água que dá nome ao lugar:  Cachoeira dos Garcias.

Em um dos dias anteriores, enquanto pedalava bem devagar, próximo a um mata-burro, ao passar o pneu dianteiro sobre algumas pedras arredondadas, o Célio acabou sofrendo uma queda. Depois, se vangloriava para o pessoal da pousada: "Eu hoje estou feliz. Caí num mata-burro e tô vivo!"  Aqui o “santo” Célio e o Rodrigo na entrada para a pousada:

O local onde está a pousada é uma RPPN (Reserva Particular do Patrimônio Natural):


Finalmente, a cachoeira. 27 metros de altura, com pouca água nesta época de seca:

Em sequência à primeira, há outra queda d’água:

A pedra partida, lembra a cabeça de um grande mero:

À tarde, após o almoço, o Célio foi descansar um pouco. Quando voltou do quarto, ao escurecer, chegou contando: “Me aconteceu um negócio engraçado. Eu me deitei e estava já cochilando quando ouvi um barulho semelhante a um farfalhar de asas. Dei uma olhada geral no quarto, de onde estava e não vi nada. Voltei a cochilar. Aí, ouvi o barulho de novo. Inconformado de não saber o que era, levantei-me da cama, olhei embaixo dela, olhei atrás da porta, e não via nada. Comecei a ficar assustado. Será que tem fantasmas aqui? Ou será que morri e os anjos vieram me buscar?” Enquanto contava, todo mundo rachava o bico de rir. Aí, ele explicou: “Enquanto eu olhava para todos os lados, o ruído aconteceu novamente e eu descobri que era o forro de tecido do quarto que, inflado pelo vento, abanava e produzia aquele ruído. Foi um susto!” 

A pousada não tem energia elétrica e o jantar foi servido à luz de velas, mas a Cíntia, nossa anfitriã, iluminava a noite:

Continua amanhã.


segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Caminho dos Anjos - 4º dia - de Alagoa (Pousada Anjos da Montanha) à Estalagem do Mirante (Aiuruoca)

Após uma fantástica noite de sono em que se podia “ouvir” o mais completo silêncio, levantamos na manhã de hoje muito bem dispostos para mais uma jornada. Desta vez seriam 28 km e com pequena variação de altitude: haveria altos e baixos, com apenas duas subidas mais íngremes e longas e as respectivas descidas, lógico.
Logo de cara, uma cena inusitada: um canário lindo, amarelinho, que desafiava um adversário virtual no espelho do carro do dono da pousada. É isso mesmo, ele assentava em frente ao espelho e promovia a maior briga consigo mesmo. De se ouvir a alguns metros de distância as batidas do seu bico no vidro. Quando a gente se aproximava, ele fugia, mas logo voltava e reiniciava a batalha:

Deixamos a pousada às 08:45 h da manhã, prometendo, no íntimo, voltar algum dia para desfrutar a maravilha de atendimento da Cíntia e do Juninho e a tranqüilidade do lugar:

Segundo nosso companheiro de viagem, o Célio, aficcionadíssimo do GPS, que ele carrega e consulta na menor dúvida, a altimetria de hoje poderia ser representada como os dentes de um serrote, com uma cabeça de jacaré de boca aberta e outros jacarezinhos menores, no final. Pedalamos a maior parte do tempo por uma estradinha (veja a foto), margeando um rio que em muitos trechos tinha mais de 10 metros de largura. A característica principal de hoje é que teríamos que passar por mais de uma dezena de porteiras, o que poderia ser evitado se trafegássemos pela estrada principal, alternativa descartada por causa da intensa poeira provocada pelo tráfego de veículos naquela via.

Veja mais um aspecto da estrada:

O rio que, como citamos, segue ao lado da estrada:

O dia esteve nublado durante todo o nosso trajeto, só abrindo um pouco o sol após as 14 horas, quando já tínhamos chegado à Estalagem do Mirante, a 4 km de Aiuruoca. O pico da foto, cercado por nuvens, nós contornamos à distância:

Um trecho muito bonito e agradável do Caminho: de um lado eucaliptos, do outro, pinheiros:

A estrada, neste ponto, bem perto do rio:

Há trechos em que o leito do rio está escavado nas pedras:

A Estalagem do Mirante, onde nos instalamos para passar a próxima noite. Tem esse nome porque possui dois mirantes para o rio Aiuruoca, um que dá visão rio acima, outro rio abaixo.

À tarde, depois do almoço, fomos ver a cachoeira do “Deus me Livre”, a cerca de meia hora da estalagem. A foto mostra a passagem do Rodrigo sobre o rio, por uma pinguela, no caminho para a cachoeira:


A trilha, para se chegar à cachoeira, atravessa a floresta que margeia o rio e tem dificuldades de acesso, como passagens estreitas entre árvores e pedras, ou troncos caídos como o da foto:

Outro trecho da trilha para a cachoeira:

Finalmente, a cachoeira. São 3 quedas de 15 m de altura, mas a gente só consegue chegar até a última.

A foto a seguir, tirada do mirante que dá nome à propriedade, encerra a etapa de hoje. Amanhã será um trecho de 18 km, 14 dos quais serão subida. Porque necessitamos de manutenção nas bicicletas, entre outras razões, decidimos hoje enviá-las de caminhonete (após os serviços), assim como nossas mochilas e alforjes e efetuarmos o percurso a pé. Na próxima inserção conto como foi...