domingo, 13 de março de 2011

As histórias do Caminho (da Fé)


Foto 01
 Neste Carnaval das floradas de paineiras (foto 01), ipês dos jardins (foto 02),  e lírios do brejo (foto 03) com seu inconfundível perfume, entre tantas outras, saímos mais uma vez no pedal para curtir a natureza. A intenção era percorrer de Divinolândia a São Roque da Fartura, no 1º dia, pela trilha de terra do Caminho da Fé (34 km); no 2º dia, seguindo também o Caminho da Fé de trás para frente, de São Roque até a Pousada da Dona Cidinha (13 km); voltar no 3º dia da D. Cidinha para São Roque e daí para Divinolândia, no 4º dia, também no inverso do CF.
Foto 02


Foto 03
Mas, com toda a chuva que desabou nesses quatro dias de Carnaval, ao tentarmos sair de Divinolândia, verificamos que não havia condições para a pedalada pela terra: a lama e as poças de água se espalhavam pela estrada, com tal intensidade, que julgamos mais prudente ir pelo asfalto. Havia muito risco de quedas e ferimentos, considerando que não dava para saber exatamente onde estaríamos metendo os pneus da bici... 52 km e cinco horas depois, sempre sob chuva, chegamos à Pousada Paina (pronuncia-se “paína”, porque é o sobrenome dos proprietários, de ascendência espanhola e não “pâina”, como seria de se imaginar, se se referisse ao fruto da paineira) em São Roque da Fartura. A pousada (foto 04) está instalada a 800 metros do núcleo habitacional do distrito e é extraordinariamente bem dirigida pela Dona Clair e Sr. Félix, conhecido na cidade como Felão. Gente fora de série, que dedica um imenso carinho e atenção aos peregrinos que ali aportam para o merecido descanso após uma dura jornada. E foi ali que curtimos, no primeiro e no terceiro dia, assim como, no segundo, na Pousada da Dona Cidinha, deliciosas histórias e boas gargalhadas, nas conversas com os anfitriões, assim como com os demais peregrinos e outros visitantes. E são estas histórias que eu vou contar aqui, hoje, para vocês, enquanto vou falando da nossa mais recente aventura.


Foto 04
Chegamos às 5 da tarde, mais encharcados que o Bob Esponja. Tiramos a roupa molhada, tomamos um reconfortante banho quente, enquanto a Dona Clair já punha a roupa suja para lavar no tanquinho. Depois, de chinelos emprestados pelo Sr. Félix, sentamo-nos à mesa, na minha cabeça, para esperar o jantar. Mas, Dona Clair tinha outras idéias: serviu-nos café e leite quente com bolachinhas de nata e rosca. Foram as mais suaves, saborosas e delicadas bolachinhas de nata que eu já comi. A promessa era para, no dia seguinte, antes de sairmos para a Dona Cidinha, conhecermos os bezerros da propriedade e a parte de cima da pousada, a casa antiga que pode abrigar até 15 hóspedes. Enquanto conversávamos, Dona Clair não saía da cozinha. Não demorou muito para o jantar ficar pronto: salada de tomate e alface, colhida ali mesmo, da hortinha atrás da casa, que o Sr. Félix foi buscar instantes antes de servir; feijão, arroz, carne de panela e abobrinha batidinha refogada e deliciosa. Antes de dormir, Dona Clair ainda fez um chá. De alfavaca. Alguém conhece? É uma planta cujo aroma lembra cravo da índia. Uma delícia!
O dia seguinte, prá variar, amanheceu chovendo. Que novidade! Não foi possível executar o programa traçado na véspera: nada de ver bezerros ou visitar a outra casa da pousada. Depois do café, mesmo sob chuva, decidimos pedalar em direção à pousada da Dona Cidinha, pelo caminho de terra. Havia chegado um casal de ciclistas, o Marcos e a Solange, de Batatais, que havia vindo de lá e informaram que o caminho não estava muito ruim, que dava para passar bem. Só havia uma poça grande, mas que era possível passar pelo lado direito. O Sr. Félix havia se referido a este trecho, dizendo que havia uma pequena ponte, onde a água estava passando por cima, formando uma mini lagoa, intransponível a seco. Mas como a maior parte do trecho seria de declives, botamos o pé na estrada. Ou o pneu, né?
De saída, uma íngreme subida, asfaltada, mas que provocava a sensibilidade de todos os músculos desgastados do esforço da véspera. Com muito custo, chegamos ao topo e iniciamos a descida pela estrada de terra. E aí ocorreu um encontro inusitado: cruzamos com um elegante senhor que caminhava em sentido contrário. Camisa e calça social, capa de chuva sobre o corpo e a mochila, chapéu na cabeça.
- Bom dia!
- Bom dia, respondeu.
- O senhor mora aqui?
- Não! Estou caminhando.
- Tem propriedade por aqui?
- Não, estou fazendo o Caminho.
- Ah, está fazendo o Caminho da Fé?!
- É...
- Nooooooooooossa! O senhor parece um lorde inglês. Como é o nome do senhor?
- Hélio!
- E de onde o senhor é?
- Sou de Patrocínio Paulista, perto da divisa de Minas.
E foi assim. O Sr. Hélio, que disse que vai completar 70 anos de idade e que caminha de traje social, vinha vindo desde Mococa e pretendia dormir em São Roque da Fartura. Indicamos para ele a Pousada Paina e lhe dissemos que ele seria muito bem atendido lá. E depois nos despedimos, desejamos-lhe boa caminhada e... Esquecemos de fotografá-lo!
Não demorou muito para chegarmos ao trecho pior: além do barro natural da estrada, haviam passado uma motoniveladora poucos dias antes e após o trânsito de alguns tratores, vocês imaginem como ficou (foto 05).

Foto 05
Não descemos montados, pois escorregava muito e grudava tanto barro no pneu que até para descer tínhamos que empurrar a bicicleta. Saindo do trecho pior, continuavam os problemas: o pedal travava e não era possível pedalar em primeira marcha. O jeito era uma ou duas pedaladas para frente, girar em falso o pedal para trás, mais uma ou duas pedaladas para a frente, voltar a girar o pedal para trás e ir caminhando aos poucos. Ainda bem que eram poucas subidas...
E chegou a lagoinha. Tentamos atravessar pedalando, mas não teve jeito: a bicicleta parou no meio da água suja e tivemos que pisar na poça e empurrar.
Seguimos, logo nos aproximamos da Pousada da Dona Cidinha e a poucos metros da entrada, três motoqueiros trilheiros nos alcançaram, com suas roupas coloridas e barro por todo lado. Iam para São João da Boa Vista e havia uma bifurcação na estrada que os estava deixando em dúvida. Indicamos o caminho e seguimos, encontrando, já na entrada da pousada, o Júnior (filho da Cidinha), sempre com sua moto de trabalho. Trazia nas costas uma bomba de pulverização e estava, segundo ele, se dirigindo a uma plantação de batatas para “sulfatar” as plantas que, com o excesso de chuvas, estavam sujeitas a doenças. Com uma trégua da chuva, mesmo sendo domingo e ainda de carnaval, lá foi ele executar o seu trabalho.
Terminamos de chegar e a Cidinha veio ao nosso encontro, com sua eterna
festa, sempre nos recebendo extremamente bem e com muita alegria. Abraços de cumprimentos a ela e ao Chico, seu marido. Antes do banho, esguicho nas bicicletas para tirar o barro. A Cidinha tem uma mangueira de pressão no curral, levamos as bicis para lá, lavamos, depois as deixamos secando.

Foto 06
 Estávamos nos preparando para o almoço, quando chegaram três novos peregrinos ciclistas (foto 06): Roberto, Eduardo e Cláudio, da Vila Guarani, Jabaquara, São Paulo. Não quiseram almoçar, carimbaram suas credenciais, se reabasteceram de água, tiraram dúvidas sobre a seqüência do caminho e logo partiram. Pretendiam chegar a Aparecida em cinco dias. 

Almoçamos salada de alface, abóbora e pepino, com um excelente tempero preparado em separado, arroz, feijão, macarrão e leitoa! Aff! A sobremesa, na casa da Cidinha, é um negócio à parte: três ou quatro espécies de doce, para escolher à vontade. Ou comer um pouquinho de cada um deles... Se me lembro bem, tinha doce de banana, de mamão, de abóbora e de leite!

Foto 07
Mal acabamos de almoçar, chegaram mais dois ciclistas: Renato e Rafael (foto 07), também de São Paulo. Duas figuras humanas extraordinárias! Foi muito divertido acompanhá-los à mesa, enquanto faziam sua refeição e nos contavam sobre suas aventuras. Renato, dentista, comemorando 17 anos de casamento, convidou o sobrinho Rafael, publicitário, para fazer o Caminho. Este alegou que não tinha roupa adequada. “Faça com o que você tiver, mesmo!”, disse o tio. Resultado: aí estavam eles e o Rafael veio com o que tinha (repare na foto): calção, meião e chuteira de futebol! Numa boa, numa muito boa! Sem stress, curtindo e se divertindo prá valer. Eles iam continuar o percurso e pretendiam dormir em São Roque. Indicamos-lhes, também, a Dona Clair. Como conhecemos bem o Caminho, passamos ao Renato dicas sobre lugares para ficar e visitar no percurso. Ele carregava tudo muito bem organizado, desde a altimetria do caminho até os telefones e endereços das pousadas. Antes que saíssem, chegou mais uma dupla, desta vez a pé, um casal: Sueli e Fernando, também de São Paulo. Vejam a foto das duas duplas, mais o Francisco e a Cidinha (foto 08).

Foto 08
A história do Fernando, antes de chegar à pousada, é engraçada. Naquele mesmo lamaçal que já citamos, ele e a Suely se encontraram com o Juninho (filho da Dona Cidinha), que estava de motocicleta. Na conversa que tiveram, disseram para o Júnior que iam ficar na pousada da sua mãe e este, que estava vestido em trajes de trabalhador rural, se ofereceu para carregar as mochilas, para aliviá-los do peso. A Suely já ia tirando a dela quando o Fernando, sem conhecer o Júnior, falou rapidamente: "Não, não, não precisa, não".  E o medo de ele sumir com as mochilas?
Antes disso, o Fernando havia se encontrado com um Sr. Alexandre, abstêmio, que lhe disse que não poderia entrar com cerveja na pousada da Cidinha. Trazendo três latinhas na sua mochila, quando a Cidinha pediu sua roupa suja para lavar, ele não quis entregar, com receio de que ela visse suas cervejas e não os deixasse ficar, sei lá! Enfiou a mochila embaixo da cama, para evitar que avistassem as latinhas. Mas a Cidinha, com sua espontaneidade, entrou lá, catou a mochila com a roupa suja e, logicamente, achou as cervejas! Pronto, pensou o Fernando, ferrou! Mas, como não era nada disso, a Cidinha tem até cervejas em sua geladeira, para servir os peregrinos, o mal entendido foi esclarecido e o Fernando pode saborear suas cervejas com tranqüilidade.

Foto 09
A pousada da Dona Cidinha (foto 09), encravada no Sítio Ribeirão Preto, fica na parte mais alta de uma montanha e o visual direto da varanda (foto 10) é fantástico. À noite, com tempo bom, que não era o caso naquele dia, podem-se avistar as luzes de 11 cidades da região, desde São João da Boa Vista até Casa Branca. Pela situação da entrada da pousada, dá prá ter uma idéia de como estavam as estradinhas por lá!
Na manhã seguinte, depois do delicioso café da manhã, composto de leite, café, chá, pão e manteiga caseiros, bolachinhas de nata e pão de queijo, partimos de volta para São Roque da Fartura. Fernando e Sueli já tinham saído há algum tempo. Nós os alcançamos alguns quilômetros adiante, um pouco antes de passar novamente pela “lagoa” de lama.
Foto 10
Só que, desta vez, o “reservatório” parecia estar um pouco menos cheio e conseguimos fazer a travessia sem pisar na água, passando apenas a bicicleta por dentro da poça e pisando no capim em uma das laterais da estrada. Mais adiante, voltamos a reencontrar a lama densa e pegajosa daquele trecho pior do caminho, cuja foto já mostramos, e não havia como pedalar. O jeito era empurrar a bicicleta e, de vez em quando, tirar o excesso de barro grudado nos pneus e outras partes da magrela, para poder avançar pouco a pouco. Ao chegarmos de volta à Pousada Paina, lavamos as bicicletas com uma mangueira de água e depois fomos conhecer os bezerros que o Sr. Félix cria. Ele entra no pasto, bate com as mãos no cocho e os chama. Aos poucos, eles vão se levantando de onde estavam deitados, ruminando seus capins e vão-se aproximando. São bem mansos e a gente até pode até tocar neles, embora eles não gostem muito do contato.
O dia, porém, nos reservava uma agradável surpresa. Conhecemos, naquela tarde a netinha mais nova do Sr. Félix e D. Clair. É uma figura! Lindíssima, adora tirar fotografias, fazendo poses e mais poses para a felicidade dos avôs corujas. Chama-se Maria Amélia e tem dois anos de idade. O cachorrinho é o Bandido (figura 11).

Figura 11
Mais tarde fomos ver a outra casa da Pousada, mais acima. É uma casa antiga, de piso de madeira, com dois quartos que tem camas de casal e outros dois com beliches. Há uma pequena cozinha com fogão e mesa para refeições rápidas.
Naquela noite, após o jantar, veio visitar os pais a filha de Dona Clair, Evandra, com seu marido Paulo, pais da Maria Amélia. Veio também uma irmã de Dona Clair, Gina, com seu marido. Jogavam trilha, contavam histórias e minha esposa preparou a sobremesa: virado de banana. Foi o maior sucesso! Receita mineira que agradou a todos, muito simples de fazer: corte oito bananas prata em rodelas de até meio centímetro de largura. Corte também um pedaço de queijo minas, de preferência fresco, em quadradinhos e reserve. Pode ser também outros tipos de queijo, como mussarela, por exemplo. Mas o que fica melhor é o mineiro. Leve a banana ao fogo, numa panela com duas colheres (de sopa) de manteiga. Adicione quatro colheres (de sopa) de açúcar e uma pitada de sal, mexendo sempre. Quando a banana estiver começando a amolecer, acrescente o queijo e uma porção de farinha de milho, a gosto. Mexa mais algum tempo e desligue o fogo. É um pitéu!
Partimos na manhã seguinte, mais uma vez pelo asfalto, em direção a Divinolândia. Como continuava chovendo praticamente direto, desde o dia 28 de fevereiro, o mais sensato era evitar a estrada de terra. O mais engraçado é que, ao ver-nos virando para a esquerda, na saída de São Roque, um senhor que passava protestou: “Ei! Está errado! É pro outro lado!”. De fato, o Caminho cruza a estrada asfaltada e sobe do outro lado. Mas não era o nosso destino desta vez. Rumamos em direção à estrada Vargem Grande/São Sebastião da Grama. Depois, no trevo, viramos à direita até São Sebastião. A certa altura, alguém semeou girassóis à beira da estrada. E aproveitamos para eternizar o momento (foto 12). Estes trechos não têm acostamento asfaltado. No trevo de São Sebastião viramos à direita, em direção a Divinolândia. Paramos sobre a ponte para comer as bananas que trouxemos da casa do Sr. Félix. É bom para repor as energias e auxiliar na redução da possibilidade de cãibras. Seguimos, então, agora, felizmente, com acostamento asfaltado. Chegamos perto das 13 horas em Divinolândia. Almoçamos, tomamos um banho no Hotel Lunayma, onde havíamos deixado as malas-bike, fomos para a Rodoviária, desmontamos e embalamos as bicicletas, exatamente a tempo da chegada do ônibus. Enquanto fazíamos isso, aproximou-se de nós o Sr. João, acompanhado pelo filho. Ele tem um pesqueiro 500 metros adiante do trevo de Poços de Caldas, na direção de Caconde. Anda diariamente de bicicleta e convidou-nos para ir visitar a sua propriedade. Futuramente, certamente iremos. Houve tempo também para um papo com o Sr. José Donato, taxista, que nos orientou na chegada, sobre as estradas asfaltadas da região. Somos muito gratos a todos. Gosto sempre de repetir: são os anjos do Caminho.


Foto 12

Embarcamos às 15h20min. Sempre sob chuva...

quinta-feira, 3 de março de 2011

“Um strike macabro” ou “Carros versus bicicletas”

De repente, o país fica estupefato. Atônito, assiste ao vídeo em que um carro arremete em velocidade contra ciclistas. E corpos e bicicletas voam pelo ar, num inusitado e macabro strike, enquanto o automóvel desaparece.

Aparentemente, no episódio, além da atitude machista (no sentido de machão, tipo: se não saem da frente, passo por cima) do motorista, houve intolerância dos ciclistas, conforme vi em entrevista à Tv: “não misturamos carros com bicicletas”, ou seja, não admitiam a passagem de carros. Mas não tinham permissão pública para o evento e, portanto, autoridade para bloquear o trânsito de veículos.

Aqui, agora, é suposição: deve ter havido bate boca entre os ciclistas que faziam a segurança do grupo e o motorista atropelador. Não houve entendimento, exatamente o ponto onde eu queria chegar. Preferiu-se o confronto.

A gente vê isso por todos os lados: ninguém quer abrir mão de nada, em busca do bem comum. Consideram isso humilhação, sei lá. Se a pessoa não encara, é fraca, covarde. É a famosa “lei de Gérson” imperando: Não cedo um milímetro, mesmo que isso pudesse beneficiar uma comunidade...

E as cidades não estão preparadas para os ciclistas. Elas são desenvolvidas do ponto de vista do automóvel. E as bicicletas não são simplesmente um meio de transporte, elas revelam a opção por qualidade de vida. Muita gente está preferindo, cada vez mais, ir ao trabalho, por exemplo, de bicicleta. Não é só lazer. É opção de exercício. É curtir o caminho, é levantar um pouco mais cedo, o que também é saudável, para aproveitar melhor o percurso, é tornar o seu dia-a-dia mais prazeroso, menos correria. 

Como diz o Engenheiro José Luiz Portela, na Folha de São Paulo, “o caminho para uma metrópole mais amigável é criar uma infraestrutura ampla, geral e irrestrita para a bicicleta. Um sistema cicloviário que permita trafegar de bike pela cidade”.

Ainda bem que vão aumentando sempre as pessoas que pensam assim. Como a Renata Falzoni, também citada por Portela, que batalha constantemente pela criação de meios e regulamentação para o uso da bicicleta. A continuar assim, vai chegar o momento em que os poderes constituídos não terão como continuar ignorando a necessidade de propiciar condições de tráfego aos “bicicleteiros”.

Volto a falar de Ribeirão Preto, que é a cidade onde moro, assunto a que já me referi anteriormente: uma topologia plana ou com aclividade mínima, perfeitamente transitável por bicicletas. Por que não há ciclovias? Quando será que nossas autoridades vão perceber que a bicicleta pode representar a opção para desafogo do trânsito, redução da poluição, melhoria do condicionamento físico do cidadão, maior qualidade de vida? Sem falar que obras para acomodar bicicletas certamente custarão muitas vezes menos do que as que se destinam aos automóveis.

Será que algum dia, mesmo sem considerarmos que o espaço territorial do Brasil é imensamente maior, chegaremos a ter uma estrutura cicloviária como a da Holanda, por exemplo, que chega a ter quase 20 mil km de extensão? Onde o número de bicicletas chega a ser o dobro do número de carros? Onde cerca de 40% da população faz suas viagens diárias de bicicleta?

Sonhar também não ofende...

sábado, 26 de fevereiro de 2011

5º Dia do Caminho da Fé: Águas da Prata/Serra dos Limas

Bem, como já disse, a Pousada do Peregrino, em Águas da Prata, não serve café da manhã. O jeito é procurar uma padaria ou uma lanchonete, para a primeira refeição do dia. É, porque o dia não vai ser nada fácil... É muito importante tomar um café reforçado, com frutas e cereais, se for possível. E para aqueles que vão pedalar todo o dia e não desejam perder tempo com o almoço, é bom mandar preparar uns sanduíches para ir comendo pelo caminho conforme vai dando fome.

A saída se faz cruzando a linha de ferro e pegando a via que contorna a montanha. Antigamente não era assim. Faziam a gente subir aquele morro ali para descer do outro lado. E a subida, através do bosque, até que era agradável no início. Vejam, na foto 1, a cidade ficando para trás. E depois, na foto 2, como era íngreme e complicada a subida: pedras, tantas pedras, que às vezes era até difícil empurrar a bicicleta. E a descida, do outro lado da montanha, não tinha caminho, nem trilha, nada. Era só um pasto, com grandes pedras e muito capim. E quando chegava ao pé da montanha, tinha que passar a bicicleta por cima da cerca de arame farpado. Mas, isso é coisa do passado. Hoje você contorna a montanha e logo encontra trechos agradáveis, como os das fotos 3 e 4.
 
FOTO 3













E pouco mais de uma hora depois,
chegamos à cascata Ponta da Pedra (foto 5). 
FOTO 4
É um lugar fantástico, parece ter sido criado para ser fotografado. Aproveite a beleza do lugar, tire excelentes fotos, descanse um pouco e pedale (eu ia falar “pé na estrada”, mas não é o caso, né?). Depois dessa cascata tem a subida do Pico do Gavião. Você sobe, sobe, sobe, quase sempre ao som de cascatas (foto 6). Durante longo trecho, enquanto pedala, você ouve o murmúrio das águas montanha abaixo. E vê as placas não muito simpáticas que o proprietário das terras colocou naquele local, “lembrando-o” que se atravessar a cerca, será considerado invasor e tratado como tal. Eu, hein?
Daí você passa pela base da montanha, utilizada pelos praticantes de paraglider. Daí para a frente, até chegar à Pousada Pico do Gavião, costuma haver um trânsito relativamente intenso, por causa do pessoal que se movimenta entre a pousada, onde se hospedam, e o local dos saltos e vice-versa. E eles são “velozes e furiosos”. Tome cuidado!
Logo, logo, vamos chegar a divisa São Paulo/Minas. É outro lugar encantador, embora às vezes nossa ousadia em querer cruzar o riacho através da água (foto 7), às vezes nos custa um banho inesperado (foto 8). Há uma passagem através de uma pequena ponte ou pinguela, mas que tem largura suficiente até atravessar pedalando (foto 9).
FOTO 6
Nunca me esqueço de um sufoco que passamos no trecho que vem logo em seguida. Estávamos pedalando tranquilamente quando começamos a ouvir um mugido que se repetia freneticamente. Entreolhamo-nos e fomos seguindo, com todo cuidado. Ao nos aproximarmos mais, começamos a ouvir também um tropel, que soava durante algum tempo, parava, começava de novo, parava mais uma vez, e assim ia. Olhávamos atentamente o que era possível enxergar do caminho, esperando ver a qualquer momento, quem ou o quê estava causando aqueles sons. E não demorou para vermos um vigoroso e solitário touro que corria trechos da estrada, ora para um lado, ora para o outro e berrava insistentemente. Parecia que ele havia perdido a sua “turma”.
E agora? Como vamos passar por ele?
No local a estrada havia sido recortada em meio à pastagem e seu leito apresentava uma profundidade de pouco mais de um metro. Sugeri que colocássemos as bicicletas sobre o barranco e contornássemos o touro, procurando evitar que ele nos visse. E foi o que fizemos. Devagar, abaixando-nos e empurrando as bicicletas, tentando fazer o mínimo de barulho, passamos. Logo à frente, voltamos para a estrada e continuamos, deixando o touro para trás. Mas se fosse um local entre árvores de uma floresta, como o que vem logo em seguida (foto 10), não sei o que faríamos. Talvez tivéssemos que esperar até o touro ir embora, ou voltar... Mas isso não estava no programa!
FOTO 8
Com muitas subidas ainda pela frente, a próxima etapa nos levará até a Pousada Pico do Gavião. Cruzamos um eucaliptal (foto 11) e prosseguimos por trechos de subidas e descidas leves.
FOTO 9
Depois do km 302 há uma descida mais acentuada, com pedras, tendo uma ponte de madeira ao final, para voltar a subir do outro lado, passando pelo km 300 (foto 12). Da primeira vez que passamos aqui, descontada uma hora que levamos para subir e descer a montanha na saída de Águas da Prata, havíamos consumido quatro horas de percurso. E chegamos à Pousada (foto 13). É uma construção bem simpática, onde carimbamos a credencial, tomamos um maravilhoso suco de laranja, acompanhado por um delicioso sanduíche (tudo, no Caminho da Fé, adquire um sabor especial: acho que é a fome)!
Aqui o Caminho sofreu outra mudança. Anteriormente, a gente retornava uns 600 metros pela mesma estrada que chegamos e virávamos à esquerda, cruzando uma floresta bem densa, onde já chegamos a ver um bando de macacos saltando pelas copas das árvores, e descendo por 10 km até Andradas. Hoje, a gente sai da Pousada e continua, na mesma direção que vinha, rumo à estrada asfaltada. Confesso a vocês que ainda não passei pelo novo trecho. A última vez que passei por ali, já estava anoitecendo e tivemos que seguir pelo asfalto, para tentar chegar à cidade ainda com a claridade do sol.
Andradas (foto 14) é uma cidade simpática e você pode carimbar a credencial em dois hotéis especificados no Guia do Caminho. A gente sempre para no Grande Hotel, pela facilidade de estar onde temos que passar.
A saída de Andradas, depois de cruzar a cidade, já começa com subida. E aí, vão-se alternando descidas, subidas íngremes e pequenos planos. Após o km 278, inicia-se um trecho de dois quilômetros de um aclive bem forte. A partir daí são cerca de três quilômetros de trecho plano com pequenas subidas, passando pela pequena localidade conhecida como “Serra dos Limas” (foto 15), prosseguindo até chegar á Pousada da Dona Natalina, depois do km 273.

Dona Natalina é pura simpatia: faz tudo para agradar. Desde seu simples, porém delicioso jantar até o generoso cuidado com o peregrino e a preocupação de que todos fiquem bem e possam descansar para reiniciar a jornada na manhã seguinte. Nós somos testemunhas desse cuidado: desde a primeira vez que viemos, ela já melhorou muito as instalações que oferece aos peregrinos: ampliou a casa, construiu dois banheiros, colocou portas nos quartos, instalou TV na salinha de estar, entre outras coisas. 
FOTO 14

Em uma das vezes que passamos a noite ali, naquela gostosa conversa com outros peregrinos, um deles contou uma história muito engraçada. Quando ele resolveu fazer o Caminho, contou com o apoio de sua esposa, que carinhosamente preparou a mochila dele para a viagem. E preparou mesmo uma “mala de viagem”, com tudo o que ela achou que ele necessitaria: pijamas, moletom, calçado extra, etc. A mochila dele ficou tão pesada que ele tinha a maior dificuldade para se locomover. Sua mochila estava pesando uns 15 quilos! E em conversa com outros ciclistas, estes lhe disseram que não precisaria nada daquilo, bastariam os apetrechos básicos, com o mínimo de peso possível. Havia um pessoal com um jipe, que se prontificou a despachar seu excesso de bagagem pelo correio, de volta à sua casa. Bem humorado, ele separou o que havia em excesso para mandar de volta e ele mesmo fez muitas brincadeiras com sua condição, provocando boas gargalhadas na turma, antes de dormir...

FOTO 15


sábado, 19 de fevereiro de 2011

4º Dia do Caminho da Fé: da Pousada da Cidinha (São Roque da Fartura) a Águas da Prata

Foto 1 - Depois de sair do asfalto, nova subida

Saímos bem cedo, às 07h15min da manhã, depois de um farto café. Logo de cara há uma subida interminááááável, para começar bem o dia. Haja esforço! Mas como com fé e perseverança, tudo se alcança, a gente acaba chegando ao topo. É uma estradinha boa, bem lisa, agradável, se não fosse o aclive acentuado. Daí, uma boa descida, para relaxar um pouco. Eu poderia dizer aqui que as descidas são sempre muito mais rápidas que as subidas, mas não vou fazer isso. Não sei por que, né? 
Foto 2-Aqui começa a vertiginosa descida para São Roque
 Depois desse declive, sobe-se mais um pequeno trecho e chega-se ao asfalto. Não dura muito, porém, a “lisura” do piso. Logo temos que sair à direita, tal qual o Leão da Montanha do desenho, por mais uma estrada de terra que, para variar um pouquinho, transforma-se, algumas dezenas de metros adiante, em vigorosa subida (foto 1). E a coisa continua assim, alternando pequenas descidas com grandes subidas, até atingirmos outra via asfaltada. E aí é um down hill, (foto 2) como dizem os aficionados, daqueles de mexer com os nervos. É tanta velocidade que eu, particularmente, nem deixo a bicicleta correr livremente. Vou freando um pouco, porque há sempre um certo receio de algo não dar certo e aí, nem é bom pensar.
Neste trecho há uma nova pousada, a Paina, recentemente incorporada ao Caminho. Paramos por lá em nossa última passagem, para carimbar a credencial e encontramos uma gente fora de série, muito simpática, e foi impossível prosseguir sem ao menos tomar um café e saborear um pedaço de rosca. Isto porque nos ofereciam todo tipo de confeitos, sucos e, a muito custo, conseguimos sair. Seguimos pelo asfalto, até chegar à cidade, a qual cruzamos rapidamente, pois é um pequeno aglomerado de casas à beira da estrada para Poços de Caldas. Atravessamos a estrada e subimos mais cerca de um quilômetro, até a Pousada do Peregrino ou Cachoeira (da Dona Cida, que já tratamos aqui no post da viagem Divinolândia/São Roque, lembram-se?). A Dona Cida faz uma comidinha excelente, e recomendamos para quem quiser almoçar. Ou jantar, ou tomar café, seja lá o que for. Lugar ótimo para dormir, também, se for final de jornada. Vista da cidade a partir da Pousada:  
São Roque vista da varanda da Pousada da D. Cida
Certa vez chegamos lá em horário de almoço, sem ter avisado antes. Dona Cida não estava, havia nascido uma netinha e ela estava assistindo a filha, em Vargem Grande. Só se encontrava seu marido, José Luiz. Fomos logo perguntando “Seu Zé Luiz, tem almoço prá dois, aí?”
“Chi”, respondeu ele, “eu ia almoçar agora, a Cida antes de sair, me falou que meu prato estava pronto em cima do fogão. Mas eu não gosto de comida requentada, estava aqui confabulando comigo mesmo: como ou não como?”
“É? Mas não tem nada aí? Um arrozinho, feijãozinho, um tomatinho prá salada, um ovinho prá fritar...?”
“Bom, ovo tem aí, tomate também tem, e” – destapando as panelas sobre o fogão – “tem um restinho de arroz também”.
“O senhor se incomoda se a gente fizer um ovo mexido e uma saladinha?”
“Não, fiquem à vontade. Eu só não prometo fazer porque...”
“Não se preocupe”, interrompemos, “pode deixar conosco.”
E foi assim. Preparamos o ovo mexido, uma salada de tomate, o arroz e o feijão já estavam quentes sobre o fogão, havia uma farinha de mandioca no capricho e aí... Seu Zé Luiz sentou-se e almoçou conosco! E elogiou a comida! Simples, mas com a fome que a gente estava, deliciosa!
D. Cida e José Luiz
Neste local há um riacho que forma corredeiras nas pedras, culminando com uma queda d’água muito bonita. Por isso, o lugar é conhecido também como Pousada da Cachoeira. Eles têm até um bar no local, que abrem nos finais de semana e feriados, e que é muito freqüentado pelo pessoal da cidade e da região, que vai curtir uma água fresca e tomar uma cervejinha, que todo mundo merece, é, ou não é?

Nos fundos da pousada
 O Caminho depois prossegue, chegando novamente à estrada asfaltada, a qual percorremos por uns 200 metros, saindo à direita e continuando por bons trechos planos, pequenas subidas e descidas, até encontrar um trecho com uma grande árvore solitária à beira da trilha.

"Nossa" árvore

Este lugar marca o início de um trecho em declive, que já foi muito difícil nos primórdios do Caminho, pois tinha buracos e muitas pedras. Hoje está melhor, a manutenção é feita regularmente e, embora persistam as pedras, as moto niveladoras têm passado com boa freqüência, alisando o solo. Em contra-partida, depois vem uma boa subida, passando ao lado de uma casa onde o morador afixou mensagens em pequenas placas com exortações de amor à natureza e regras de boa educação peregrina. Depois dessa forte subida, chega-se a uma porteira de madeira, trancada com cadeado. As bicicletas tem que ser passadas por cima.

A bicicleta não cabe no passador e a porteira está trancada com cadeado
 É um lugar com muito mato que, dependendo da época do ano, pode estar muito escorregadio, há que se tomar muito cuidado.
Em uma das passagens pelo local, alertei: “Cuidado, está muito escorregaDIIIIIIIIIO!” A roda dianteira derrapou para a direita e pranchei no chão. Até entortou a haste do freio. Mas não me machuquei (só no ego), nem houve maiores danos à bicicleta e prosseguimos. Sobe-se, ao final do declive, um pequeno trecho em meio a uma floresta, depois através de plantações e finalmente, por um cafezal,  onde ocorre a descida maior e mais perigosa de todas. Com lodo, pedras soltas de todos os tamanhos e muito risco.

Chegando a Águas da Prata
 Até chegar a Águas da Prata. As setas nos levam à Pousada do Peregrino, para o banho e o descanso merecido. Se for final de semana ou feriado, há uma feirinha, com quitutes e lembrancinhas da cidade, a poucos metros da pousada. Vale a pena visitar. Se você tiver sorte, poderá ver os macacos que vivem na floresta ao lado que, muito desconfiados, se aproximam para pegar alimentos que o povo lhes dá e fogem para o alto das árvores rapidamente. 
Aqui é onde iniciou o Caminho. Quero dizer: foi aqui que pessoas idealistas, vendo a cidade diminuir seu vigor econômico, imaginaram uma forma de incrementar o fluxo de pessoas e trazer novo agito ao pedaço. Em 15/08/2003, o Almiro, o Clóvis e a Iracema e alguns amigos voluntários, criaram a Associação dos Amigos do Caminho da Fé, para propiciar pontos de apoio às pessoas que desejassem peregrinar até Aparecida do Norte. Vocês repararam que todos os ramais criados desde então passam por aqui? Veja o mapa:

Aqui é cobrado apenas o pernoite, um valor bem razoável para não dizer barato e não há café da manhã. E é onde você pode obter todo tipo de informação que desejar sobre o Caminho. O endereço é: Av. Washington Luiz, 347 - Tel.(19) 3642-2751 - e-mail: contato@caminhodafe.com.br - Águas da Prata/SP. Horário de atendimento: das 11 às 20 h.

A feirinha de Águas da Prata
Da última vez que passamos por lá, eu disse para a Sílvia, que atendia naquele dia:
- Estamos treinando no Caminho da Fé para fazer o de Santiago da Compostela. E ela respondeu:
- Não! Você treina em Santiago para fazer o Caminho da Fé!
Simples assim. Por eles, o CF é muito mais difícil que o de Santiago...

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Castelhanos: emoção e aventura na Ilha de São Sebastião

Foto 1

Crepúsculo. Mais um dia terminava e a beleza do momento e do lugar era digna de eternidade.  Ao registrar aquele maravilhoso poente, capturamos, casualmente, uma oração de agradecimento: alguém, de braços erguidos, fazia chegar aos céus a gratidão por poder fazer parte, mesmo que por um breve momento, daquele capricho do Criador (foto 1).
Ilhabela é assim: um capricho da natureza. Aliás, toda a Ilha de São Sebastião. Muita gente ainda confunde o nome da cidade com o nome da ilha. Mas, isto nem tem muita importância. Foi pensando nas belezas da ilha e no desafio de atravessá-la morro acima, que decidimos percorrer a trilha de Castelhanos de bicicleta.

Foto 2

Novembro de 2008. Tempo bom, o sol iluminava toda a ilha e mesmo a chuva que havia caído um dia antes, não nos assustava. Saímos meio tarde, mas com toda a disposição. A trilha, que começa na cidade, logo vira uma estradinha de terra e só sobe. Logo no começo, passamos pela entrada da Toca (foto 2), lugar que ficou famoso pelo escorregador de pedra, dentro da água, onde as crianças (e os adultos, por que não) se divertem tremendamente, descendo pela água e caindo numa deliciosa piscina natural formada pelo riacho. Água fria, energizante, onde, com calma e olhando atentamente, você pode encontrar até pitus, tentando se esconder nas pedras.
Seguindo, não demora muito para chegar ao Parque Estadual de Ilhabela (foto 3). Dalí para frente, a mata e tudo que existe em seu interior estão protegidos.
Maravilha, porque assim sempre teremos este revigorante lugar para curtir e apreciar, seja a pé, seja de bicicleta, seja nos 4x4 que atravessam a montanha, levando-o até o povoado de Castelhanos, do outro lado da ilha.

Foto 3

E é pura curtição. Você vai pedalando, pedalando, subindo, subindo, sempre (fotos 4 e 5). A prodigiosa natureza o cerca por todos os lados e você pode ver avencas, samambaias, orquídeas e uma grande variedade de árvores nativas, resquícios da mata Atlântica. E até outras espécies mais ordinárias, como as marias-sem-vergonha, decantadas pelo poeta Chico. Pode ouvir pássaros de variadas espécies, alguns que você talvez nem reconheça. Nascentes de água fresquinha, correndo entre pedras e gramíneas. Enfim, é um relax total...


Foto 5


Foto 4
Chegamos, enfim ao ponto mais alto da trilha (foto 6).
Daí para frente, é só descida. Despencamos ladeira abaixo, tomando cuidado com o barro que se acumulara em alguns pontos e que dificultava a passagem, dependendo da extensão que ocupava na estradinha. Esses locais, poucos, o sol não penetrava em razão da densidade da floresta e o barro permanecia ali, resistindo sem secar, para trazer um ingrediente mais aventureiro ao ciclista. Todo o cuidado, porém, não evitou quedas, felizmente, sem maiores conseqüências (foto 7).

Foto 6

E, de repente, surpresa! Um pequeno rio para atravessar (foto 8). E milhões de pernilongos para azucrinar. Mas, quem se mete numa aventura dessas, não pode reclamar de insetos. O negócio é curtir e até se refrescar nas águas límpidas e frias.


Foto 7
 
Atravessado o rio, mais algumas dezenas de metros de pedal e finalmente, chegamos! O lugar é pitoresco e nem tem energia elétrica (foto 9). Mesmo assim, você pode saborear um delicioso suco de abacaxi, servido no vidro de maionese, que se toma degustando pedacinhos da fruta, uma maravilha! Ou mergulhar no mar para se refrescar, embora as ondas não fossem, na ocasião, muito amigáveis, fazendo com que os freqüentadores não se afastassem muito da praia.


Foto 8
 
Foto 9
 Muito bem. Chegamos, curtimos, mergulhamos. E agora? Tínhamos que voltar. Já eram quatro horas da tarde e em meio a todo aquele barro, a subida da montanha ia ser complicada, porque logo escureceria e ninguém conhecia o caminho suficientemente. Confabulamos e o jeito encontrado foi contratar um dos jipes que transportam turistas para nos levar até o alto do morro. Felizmente, encontramos um motorista que se dispôs a nos levar. E lá fomos nós, chacoalhando tal qual frutas no liquidificador, sobre a carroceria, tentando evitar que as bicicletas se batessem ou ao metal da caçamba, levando ferradas nas costelas, quando o jipe solavancava nos buracos, ou ainda, se abaixando e desviando para os lados, para evitar galhos na cabeça. Até que alguém se esqueceu de abaixar e - rasg! – o arranha-gato enroscou-se na roupa e foi um Deus-nos-acuda para fugir dos espinhos e desenroscar a camisa. Ao final, cabia perfeitamente aquela velha máxima: entre mortos e feridos, salvaram-se todos! (foto 10)

Foto 10


Descemos do veículo, descarregamos as bicicletas (que chegaram inteiras, felizmente) e retornamos, fazendo agora a descida pelo lado oeste, que havíamos subido na ida. E tudo acabou na mais pura alegria. É uma aventura para nunca mais esquecermos...

sábado, 5 de fevereiro de 2011

3º Dia no Caminho da Fé: Tambaú/São Roque

No 3º dia, em Tambaú (km 429 do Caminho), carimba-se a credencial no escritório da Secretaria de Turismo (primeira foto). Para sair, cruza-se a praça, defronte a igreja, seguindo á esquerda até a Avenida. Daí, à direita, subindo e depois descendo até chegar ao portal que marcava o início do Caminho, quando este de fato ocorria naquele lugar (segunda foto).
 Atravessado o portal, para quem quiser marcar simbolicamente o Caminho, há uma pinguela como opção, ou pode ir pela ponte. Vira-se á direita, pegando uma estrada municipal de terra, em aclive, para variar, que costuma ter certo movimento de carros, é bom ficar atento.
Até um tempo atrás, depois de subir e começar a descer, havia um desvio por meio de uma plantação de eucaliptos, que evitava o trânsito da estrada e tornava muito mais agradável o trajeto: um pequeno bosque, mais uma pinguela, uma passagem à beira da estrada, mais alguns eucaliptos e depois voltava à estrada, mas apenas por poucos metros, pois logo saia à direita, cortando por canaviais, cafezais, mais eucaliptos e até laranjais, sem falar em belas lagoas como a da terceira foto.

Mas, isto é coisa do passado. Não sei qual o motivo, mas o Caminho não segue mais por lá. Agora vai sempre pela estrada municipal até que uma das setas amarelas o leva para outro lado. A estradinha de terra ganha asfalto e torna-se opção para quem quiser chegar mais rápido a Casa Branca. Para os que vão pelo Caminho, é só seguir as setas, percorrendo estradinhas de terra, não demorando muito para se atingir a cidade. Chega-se pela região norte, percorrendo um trecho de uma avenida e virando-se à direita, mais uma vez em aclive,  percorrendo-se ruas com asfalto até chegar à Pousada Nossa Senhora do Desterro, ao lado da igreja. Quem vai dormir aqui precisa reservar com antecedência. O jantar neste local, assim como o café da manhã, são muito gostosos.
Na saída de Casa Branca, desce-se pela avenida à frente da igreja, subindo do outro lado e, caso seja horário de almoço, aqui vai uma dica: tem um restaurante no último quarteirão antes de chegar à praça da matriz, do lado direito da rua (do lado esquerdo, na esquina, tem uma padaria/lanchonete).  Depois, contorna-se a praça ao lado da matriz, virando à esquerda, depois à direita, por uma rua na contra mão, em declive. Sobe mais uma vez, vira-se à direita, margeando um bosque, mas por pouco tempo: você é instado a penetrar nele pelas setas amarelas. Um trecho agradável, em meio às árvores. Veja a foto:
Saindo do bosque, cruza a rua, segue em frente para virar à esquerda logo em seguida e, pouco depois, pegar uma passagem à direita, cruzando sob um viaduto e seguindo em frente. Você percebe que está no caminho certo pelas inúmeras marcações em amarelo nos mourões da cerca á beira da estrada. Mas não por muito tempo: logo tem uma placa indicando que se deve virar á direita, por um caminho em meio ao mato, passando por trás dos terrenos de algumas empresas, até sair de novo numa estrada asfaltada. Está pensando que vai pela estrada? Não! Cruza-a, (se não me engano até são duas estradas asfaltadas) segue outra vez um caminho em meio ao matinho, aliás, muito agradável para o ciclista, pois é bem liso e plano, com ligeiro declive. Até chegar à estrada Casa Branca-Vargem Grande. Aí é necessário ir pelo acostamento, até encontrar o pedágio, um pouco mais de seis quilômetros. Mas, fique atento: quando estiver se aproximando do pedágio, vá pela contra mão da estrada, pois a saída do Caminho é para a esquerda, bem ao lado do pedágio. Certa vez seguimos pela direita e não vimos a placa que indicava saída para o outro lado. Resultado: fomos pelo asfalto até Vargem Grande.
Segue, então, por estrada de chão batido, bem dura e cheia de “costelas”. Corta um canavial, para descer em seguida por um carreador lateral, cheio de buracos de enxurrada, até chegar a uma porteira de madeira. Após atravessar a porteira, você vai “curtir” uma das trilhas mais inusitadas: caminhos de vacas, entre a relva, muito estreitos e cheios de recados das ditas cujas: “Ei, estivemos aqui!” Você já deve saber do que estou falando.  A sorte é que o terreno é plano... Depois de atravessá-lo, chega-se a outra porteira e a uma insólita ponte de madeira (veja a foto), sobre uma estranha corrente de água que, de cima, dá a impressão de ser tremendamente salobra.
 Principalmente olhando-se para a direita, no que parece ser uma espécie de pântano, muito esquisito... Atravessada a ponte, sobe-se uma ligeira encosta até chegar a uma “deliciosa” estradinha de terra firme, bem clara e lisa, contornado uma reserva florestal. Saímos à esquerda, cruzamos uma plantação em ligeiro declive, passando em frente a uma pousada, que não está credenciada pelo Caminho. Uma subida, ao lado de uma cerca viva de pingos de ouro, uma “avenida” ao lado de bambuzais e seguimos através de hortas e plantações até uma “tranqueira”. Tranqueira? Você sabe o que é isto? Não é o que você está pensando! É uma porteira de arame farpado e madeira. Após cruzá-la, segue-se por trilhas de gado, passa-se outra tranqueira e continua por um gramado. Veja a foto que tive a felicidade de conseguir neste local:

Cruza-se o interior de uma fazenda, entre as casas, em meio a um pasto, até chegar novamente à estrada de terra. Se for época de seca, como julho, por exemplo, a estrada será perigosa porque estará com grossa camada de terra bem fina e, além de muita poeira, poderá proporcionar buracos encobertos, que se tornam verdadeiras armadilhas. Cuidado! Mas, se for época de chuvas, poderá haver muito barro e aí, também, todo cuidado é pouco. Você já estará chegando à cidade. Siga a sinalização, que o levará ao Hotel Príncipe, para carimbar a credencial e reabastecer de água.
Na saída de Vargem Grande, muita atenção nas setas amarelas. Há umas “quebradas de esquinas” que não podemos deixar passar, para não errar o caminho.  Após sair do asfalto, tem uma subida forte e segue assim, entre subidas e descidas, por boas estradas de terra, até encontrar uma placa que marca a subida para a pousada da Dona Cidinha. E que subida! É preciso muito sacrifício e disposição para encará-la, especialmente por estarmos no final da jornada e querendo mais é sentar e descansar...  Veja uma foto do local:
Mas tudo compensa: a Cidinha é uma pessoa fora de série e, mesmo que você tivesse intenção de seguir direto, dê um tempo, pare um pouco e divirta-se com o bom humor e extraordinária acolhida que nos proporcionam, tanto ela quando seu marido Francisco, seu filho Junior, a nora Janaína e o Netinho, que figura! Pode ter certeza que vale a pena.
Mas, acabei me estendendo muito. O quarto dia fica para o próximo. Até!