sábado, 14 de maio de 2011

Caminho de Santiago - Expectativa

Falta só uma semana! Vivemos o grande momento de estar chegando a hora. Quase tudo está preparado. Faltam apenas detalhes que só podiam ser resolvidos nos últimos dias antes de partir. Como a credencial, por exemplo. Vamos levar daqui a credencial pronta, fornecida pela Acacs-SP (Associação dos Confrades e Amigos do Caminho de Santiago da Compostela). Eles só a emitem a partir da apresentação das passagens aéreas e estas só nos foram entregues ontem, 13/05.
Aliás, as passagens são um capítulo à parte. Há que ter muito cuidado com a questão de horários e datas, pois as companhias aéreas são catedráticas em alterar estes itens de última hora, causando transtornos imensos aos usuários. Assim é que nossa passagem de volta São Paulo/Ribeirão, por exemplo, que havia sido adquirida aproveitando uma promoção, não vai poder ser aproveitada, porque o horário e dia de retorno da Europa foram alterados unilateralmente pela companhia aérea, de tal forma que não vamos conseguir chegar a tempo do voo programado. O bilhete promocional, para ser remarcado, só com o pagamento da tarifa cheia. As alterações da companhia aérea vão fazer com que tenhamos que ficar um dia a mais no Velho Continente. Não que isso seja ruim, mas pode ser um problema sério se a sua volta estivesse programada de tal forma que você tivesse que trabalhar no dia seguinte...
Voltemos ao Caminho. Planejamos as etapas levando em consideração nossa condição física e emocional, de tal forma que não sejam muito longas e duras, mas que também não sejam muito curtas, prolongando demais a estadia no Caminho. Como só temos 30 dias de férias e é a primeira vez que vamos à Europa, queríamos um tempinho extra para conhecer outros lugares e aproveitar melhor a viagem. O que não significa que vamos cumprir rigidamente este planejamento, pois sabemos que muita coisa pode acontecer e pode provocar alterações. Estamos preparados para isso também, deixamos um tempo adicional de dois dias para suprir estas eventuais necessidades.
No planejamento, analisamos muitas informações postadas por outros peregrinos, especialmente sobre os albergues. Assim é que procuraremos parar em locais que sempre foram apenas elogiados e nunca criticados durante estadias nos últimos 18 meses. Escolhemos pontos que não são os mais citados como de finais de etapas nos diversos sites que falam do Caminho, para tentar evitar encontrar casas cheias e ter que mudar por excesso de lotação. Porque vocês sabem que o “bicigrino” é preterido em benefício do peregrino a pé, por considerarem, com razão, que, de bicicleta, você chega com menor dificuldade até o ponto de parada seguinte, ou anterior.
Vejam, a seguir, o nosso roteiro. Consta a data em que estaremos no local, o albergue em que pretendemos ficar, com algumas informações disponíveis, tais como número de telefone, endereço eletrônico, nome do responsável, etc., a quilometragem a ser percorrida no dia e a sequência diária.
ROTEIRO DO CAMINHO

DATA
LOCAL
HOSTAL/ALBERGUE
KM
SEQ. DIA
23/05/2011
SAINT JEAN PIED PORT
ALBERGUE ULTREIA - RESERVADO
-
0
24/05/2011
ZUBIRI
EL PALO DE AVELLANO - RESERVADO
47,2
25/05/2011
CIRAUQUI
ALBERGUE MARALOTX – (678 635 208 – AINHOA)
52,2
26/05/2011
VIANA
ALBERGUE PARROQUIAL (948 64 50 37 / 646 666 738 – DOM JOSE MARIA)
53,7
27/05/2011
CIRIÑUELA
ALBERGUE PRIVADO VIRGEN DE LAS CANDELAS (941 343 290 – RUBÉN/ILKA - kevindb@hotmail.es)
54,1
28/05/2011
VILLAFRANCA MONTES DE OCA
ALBERGUE PRIVADO SAN ANTÓN ABAD - (947 58 21 50 -  hotelsanantonabad@gmail.com)
40,4
29/05/2011
HONTANAS
ALBERGUE SANTA BRÍGIDA (609 16 46 97 / 628 927 317 – FÉLIX RODRIGO)-1 QTO DUPLO/NÃO RESERVA
OU
MESÓN ALBERGUE EL PUNTIDO (947 37 85 97 – MARI CARMEN)-2 QUARTOS DUPLOS-ACEITA RESERVA
69,8
30/05/2011
CARRIÓN DE LOS CONDES
HOSTAL LA CORTE - 979 880 138 – 45 Euros – qt. Duplo – tem restaurante
53,1
31/05/2011
BERCIANOS DEL REAL CAMINO
ALBERGUE BERCIANOS - 987 78 40 08 – TINA – NÃO RESERVA – CEIA E CAFÉ DA MANHÃ COMUNITÁRIOS
49,6
01/06/2011
VALVERDE DE LA VIRGEN
·         LA CASA DEL CAMINO - 987 30 34 14 / 659 17 80 87
56,9
02/06/2011
SANTA CATALINA DE SOMOZA
·         ALBERGUE Y CENTRO DE TURISMO RURAL EL CAMINANTE - 987 69 10 98/OFELIA – QT. DUPLO NA CASA RURAL (VER PREÇO P/TELEFONE)
47,2
10º
03/06/2011
CACABELOS
OU
PIEROS
·         ALBERGUE MUNICIPAL - 987 54 71 67 (QT.DP-Ñ RESERVA)
·         OU
·         ALBERGUE EL SERBAL Y LA LUNA - 639 888 924/MAR VALBUENA - alberguedepieros@gmail.com (NOVO-S/INF)
60,5

62,4
11º
04/06/2011
TRIACASTELA
·         ALBERGUE COMPLEXO XACOBEO - 982 548 037 / 690 613 388/ÁNGEL LÓPEZ - info@complexoxacobeo.com – ACEITA RESERVA
57,0

55,1
12º
05/06/2011
PORTOMARIN
·         ALBERGUE PORTO-SANTIAGO - 618 82 65 15/BELÉN TORRES - info@portosantiago.com – PENSION C/QT.DP
40,7
13º
06/06/2011
SAN XULIÁN DO CAMINO
·         ALBERGUE O ABRIGADOIRO – 982 374 117/676 596 975/CARMEN/MIGUEL ÁNGEL - medeagomez@yahoo.es
49,5
14º
07/06/2011
SANTA IRENE
·         ALBERGUE PRIVADO DE SANTA IRENE - 981 51 10 00 / CRISTINA Y DOLORES – ACEITA RESERVAS
43,0
15º
08/06/2011
SANTIAGO DE COMPOSTELA
·         ALBERGUE PRIVADO SANTO SANTIAGO - 657 402 403 / ALFREDO - elsantosantiago@gmail.com
22,8
16º


·         TOTAL DE QUILÔMETROS/DIAS
797,7
16


Estamos levando em um pen-drive informações sobre todas as passagens do Caminho, para o caso de não haver, em algum dos lugares que ficarmos, forma de acessar a Internet. E um netbook, para baixarmos as fotos e preparar o blog diário que pretendemos disponibilizar.
Nas informações do pen-drive estão locais alternativos de estadia, caso tenhamos algum problema em qualquer dos albergues escolhidos.
As roupas, mochilas, passagens, sacos de dormir, alforjes, etc., já estão todos prontos.
As bicicletas ficam prontas hoje: lavadas, lubrificadas, verificadas mecanicamente. Algumas peças foram trocadas, em razão do desgaste que já apresentavam. Amanhã as testaremos aqui mesmo na cidade, para não sujá-las antes da viagem. Depois serão embaladas nas malas-bikes e seguirão como bagagem. Em Pamplona, já temos contactado um taxista que nos ajudará a montar as bicicletas e despachará as malas para Santiago de Compostela, levando-nos (e às magrelas) até Saint Jean Pied Port. Aí é descansar, dormir e, no dia seguinte, INICIAR O CAMINHO! De pedal vamos chegar lá!

domingo, 8 de maio de 2011

10º Dia (Caminho da Fé) - De Campos do Jordão a Aparecida

 São 72 km de pura adrenalina. Descidas alucinantes, asfalto liso, tráfego ao lado de veículos em alta velocidade. Esta última etapa marca de forma categórica o final da “viagem”. Mas, mesmo sem sair muito cedo e embora o percurso seja razoavelmente longo, acabamos chegamos com tranqüilidade no início da tarde em Aparecida. 
Foto 01 - Refúgio dos Peregrinos - Campos do Jordão
No Refúgio dos Peregrinos (foto 01), em Campos do Jordão, contamos com a atenção e carinho da Marilda e do Edison, além da alegre presença da pastora Clara. Aqui o peregrino é tratado com tanta deferência que, só para dar um exemplo, não controlam a geladeira de bebidas. A Marilda diz: “no final, vocês me dizem o que tomaram.” E funciona assim mesmo...
Com um pouco de sorte e persuasão, pode-se convencer o Edison a cantar. Depois do jantar, enquanto ficamos naquele bate papo animado com todos os outros peregrinos, o Edison pode se animar e alegrar ainda mais o ambiente com seu violão e a bela voz. Ali se contam histórias e se dá boas gargalhadas ouvindo as peripécias de cada um.

Foto 02
Nunca me esqueço da nossa primeira estadia por lá. Estavam ali também o Marco Pathe, de Vinhedo e dois rapazes de Tabatinga, pequena cidade de 14 mil habitantes, próxima a Ibitinga, chamados Barleta e Belé. O Marco tinha, na época, uma super bicicleta, importada, daquelas em que o garfo da suspensão se apóia de um lado só. Era a primeira vez que eu via uma bicicleta daquelas. E ele não se conformava com a dupla de Tabatinga, que havia conseguido chegar até Campos do Jordão em bicicletas comuns, sem marchas, as quais o Marco chamava de “pangarés”.
Barleta e Belé, uma dupla engraçadíssima, colegas de faculdade, reagiam com tranqüilidade à brincadeira do Marco e contaram em detalhes como tudo havia começado. E eu peço licença a eles para repetir aqui a história, ou ao menos o que eu conseguir me lembrar dela, esperando que isso não os comprometa...

Foto 03
 Eles viajavam diariamente para ir de sua cidade à faculdade, em um ônibus de estudantes. E gostavam de agitar, conversando sobre aventuras que ambos viviam, algumas verdadeiras, outras nem tanto, fantasiando e recheando as histórias de feitos para impressionar especialmente “as” colegas de viagem. E narravam suas andanças com tamanha naturalidade, um incrementando as invenções do outro, que ninguém sequer desconfiava que boa parte era tudo imaginação...
Pois bem, numa dessas, souberam do Caminho da Fé e começaram a dizer que iam percorrê-lo de bicicleta, porque isso, porque aquilo, até que alguém no ônibus ouviu e a notícia começou a se espalhar. Rapidamente chegou aos ouvidos de um radialista da emissora local, o qual anunciou com galhardia, que dois jovens, filhos de Tabatinga, iam fazer o Caminho da Fé e que a atitude era digna de elogios e orgulho para a cidade, cuja população oraria por eles, para que chegassem bem, sãos e salvos a Aparecida, e fossem testemunhas in loco, da fé que a cidade devotava.

Foto 04
O dono de um posto de gasolina se propôs a patrocinar a viagem e mandou confeccionar abrigos para os dois. E surgiu até patrocínio financeiro, para custear estadia e alimentação durante a viagem.
Não era mais possível recuar! Agora tinham que ir em frente! Mas como, se um deles nem bicicleta tinha? O jeito foi arranjar uma, fazer rapidamente alguns dias de treino e enfrentar o Caminho, sob os aplausos da cidade, que iria acompanhar os avanços da dupla pela rádio local.
Foto 05
E ali estavam eles, Barleta e Belé, com extremo bom humor, divertindo-se e tornando melhor o mundo ao seu redor. Também eles, com o violão do Edison, tocaram e cantaram para alegrar o ambiente. E foi, talvez, a noite mais divertida de todo o Caminho.
A saída de Campos do Jordão se faz retornando à avenida e virando à esquerda, na direção de São Paulo. Algumas quadras adiante, dobra-se à esquerda novamente, pegando um vigoroso aclive em direção ao alto do morro, passando ao lado de grandes residências de veraneio, típicas da cidade que é a estância de inverno mais famosa do Estado de São Paulo. 
Foto 06

Seguimos pela via que se torna uma estradinha estreita entre a floresta, acredito que seja a antiga saída de Campos para São Paulo e de onde se avista todo o vale verde e arborizado. Há que ter muito cuidado, pois há trânsito de veículos nos dois sentidos e muitas curvas que não permitem avistar muitos metros de estrada, além de buracos no asfalto antigo e sem manutenção.
Ao chegar à estrada de ferro, os pedestres devem seguir pelos trilhos e os ciclistas os cruzam, chegando à rodovia, prosseguindo pelo acostamento, montanha abaixo.
Muito cuidado ao passar pelo túnel. Há verdadeiros buracos em tampas de galerias feitas de concreto, em desnível ao piso do acostamento. O Edison já havia nos alertado e apesar da recomendação dele, levei o maior tombaço ao ter a roda da frente bloqueada num desses rebaixos. O capote atirou-me de costas no cimentado e só não foi mais grave porque eu estava com a mochila. Mas assustei todo mundo que assistiu, foi digno de circo! Meu irmão, na ânsia de me socorrer, encostou mal a bicicleta na parede do túnel e esta acabou por cair em cima mim. Felizmente, exceto pequenas escoriações, não me machuquei e pudemos seguir em frente.

Foto 07
Após a descida, desviamos à esquerda no trevo que indica saída para Pindamonhangaba. E aí prosseguimos quase sempre pela beira da estrada, pois não há acostamento transitável em grande parte do trecho. Há, na saída de Pindamonhangaba, uma agradável ciclovia, por vários quilômetros, facilitando a vida do ciclista.
Em Aparecida você pode ir de bicicleta até a Basílica (fotos 02 e 03) ou, como fizemos em uma das vezes que fomos até lá, parar na Pousada Jovimar para passar a noite. Mandamos para lá antecipadamente as malas-bikes, combinação que fizemos por ocasião da reserva. No mostrador do odômetro da bicicleta (foto 04) a prova do percurso, incluindo os erros que nos custaram alguns quilômetros a mais... Como geralmente chegamos cedo, há tempo para ir até a basílica (foto 05) e andar pelos arredores (foto 06). Na manhã seguinte, um taxi nos leva à Rodoviária (foto 07) para o retorno. Na bagagem, as credenciais (foto 08) quase totalmente preenchidas mostram todas as paradas do Caminho...
O espírito, descarregado das tensões do dia a dia, mais leve e preparado para a volta à faina diária, vai lembrar com saudade desses 10 dias de descontração e alegria, ao lado dos anjos do Caminho...

Foto 08 - As credenciais

P.S.: Esta foi a última narração sobre o percurso completo do Caminho da Fé. Faltam exatamente duas semanas para a viagem à Espanha, onde percorreremos o Caminho de Santiago. Renovo aqui a promessa inicial: se for tecnicamente possível (disponibilidade de Internet), postaremos diariamente neste blog fotos e impressões do tradicional “Camino”. Obrigado por lerem. Até o próximo.

domingo, 1 de maio de 2011

9º Dia (Caminho da Fé) - De Paraisópolis a Campos do Jordão


Foto 01 - Cantagalo
 A primeira coisa a dizer sobre esta etapa é o seguinte: evitem proceder como nós fizemos, ou seja, não incluam, no mesmo dia, nenhum outro trecho além do “Quebra Pernas” (saída de Luminosa para Campista). O Clóvis, do Caminho da Fé, em Águas da Prata, já havia recomendado isso, mas nós, por contingências diversas, tivemos que ir de Paraisópolis a Campos do Jordão e acabou se tornando a etapa mais difícil e dura de todo o caminho. São 62 km de pura dureza, especialmente ao deixar Luminosa, mas isso é assunto para mais adiante.
Foto 02 - Luminosa-MG
 O primeiro e agradável povoado que a gente atravessa após Paraisópolis é Cantagalo (foto 01). Construído num patamar da montanha, é um lugarejo extremamente simpático. Fica numa região em que o Caminho corta uma ponta em curva da fronteira São Paulo/Minas e, embora praticamente tudo em volta seja Minas Gerais, ele está encravado no Estado de São Paulo. Às vezes, em auto-divagações, fico imaginado morar um dia em um lugar assim... Como ponto curioso neste trecho há uma grande ponte de madeira, cercada por frondosas árvores, cuja foto nem vou estampar aqui porque já tenho muitas para exibir e acabo tendo que fazer opção. Fica o registro.

Foto 03 - Dona Ditinha (Luminosa)

Foto 04 - A subida do "Quebra-Pernas"

Foto 05 - Plantação de bananas

Uma boa subida e a respectiva descida depois, e avistamos Luminosa (foto 02), uma pequenina cidade, distrito de Brazópolis-MG, situada num vale entre montanhas. Em Luminosa a gente encontra a simpatia da Dona Ditinha (foto 03), em cuja pousada já paramos diversas vezes, especialmente para almoçar. Aliás, numa dessas passagens, chegamos quando ela estava de saída. Tem almoço, Dona Ditinha? Perguntamos. Ela respondeu: Não tem, mas eu faço! Despachou as pessoas com quem ia sair, prometendo ir mais tarde e, em pouco tempo, estavam prontos salada, macarronada, abobrinha refogada, arroz, feijão e carne! Uma delícia! 

Foto 06 - A Pousada da Dona Inês

Da sacada da Pousada da Dona Ditinha dá prá ver o que nos espera (foto 04). Na subida, depois de deixar Luminosa para trás, vemos que a base da economia local gira em torno da produção de bananas. As plantações sobem as encostas montanha acima (foto 05) e o caminho segue em meio às bananeiras. Apenas quatro quilômetros depois de Luminosa chegamos à Pousada da Dona Inês (foto 06).
Aqui, além de uma recepção calorosa e alegre, encontramos produtos de banana para consumir, sempre a preços muito baixos. É um lugar simples, porém acolhedor. O marido de Dona Inês, certa feita, nos confidenciou: “Estávamos aqui, meio isolados do mundo e pensávamos até em nos mudar. Mas com o Caminho da Fé, conhecemos um monte de gente, muita gente nos conheceu e até estrangeiros, da França e da Holanda, por exemplo, já passaram por aqui. Estamos na Internet, vemos gente diferente quase todos os dias e já não pensamos mais em ir embora”. Quem deve ter gostado disso foram seus netos (foto 07). Todas as férias eles vêm para cá para curtir a vida na roça. E puseram até a cachorrinha para sair na foto...

Foto 07 - Dona Inês, esposo e netos
Aí começa o pior trecho do Caminho. Uma aclividade forte e partes cheias de pedras de todos os tamanhos, dificultando a vida de quem está subindo. A montanha de pedra da foto 08 vamos ver por cima! Aqui, vamos ver, também de cima, os urubus fazendo seus vôos circulares, ao sabor das correntes do vento. Embora de extrema dificuldade, o Caminho ecologicamente é agradável. Pequenas cachoeiras, estrada cercada por árvores propiciando sombra (foto 09), passagem em meio a plantações de pinheiros.

Foto 08

Saímos, depois, da estrada de terra, para chegar ao asfalto, alguns quilômetros até atingirmos o Albergue Barão Montês, do Márcio. Também uma simpatia no atendimento e que não tem nada a dever aos grandes “chefs” da cozinha: prepara uma truta, por exemplo, com pinhão, que é inigualável e que tivemos ocasião de apreciar em uma das passagens por lá (foto 10). Em uma construção toda de madeira, com belos jardins onde desfilam de patos a pavões, com suas belíssimas plumagens multicoloridas e onde você pode ouvir, à noite, saracuras cantando, o Márcio juntou a Pousada a um amplo restaurante, cujo prato mais apreciado é a truta. Para prepará-la, ele a apanha viva num tanque onde as mantém especialmente para isso, ou seja, é peixe fresco mesmo...
Foto 09 - Paisagens da serra
Numa das ocasiões que passamos por lá, encontramos um grupo grande de ciclistas de Jundiaí (foto 11), com os quais pedalamos até Aparecida no dia seguinte. Quando eles chegaram, a gente já estava de saída e mais tarde os encontramos novamente em Campos do Jordão.

Foto 10 - Márcio e a truta com pinhão
Depois do Barão Montês, seguimos pelo asfalto até Campista, um bairro afastado da cidade, numa descida vertiginosa e perigosa, pois há muito trânsito de automóveis pela rodovia, que não tem acostamento. Em Campista saímos do asfalto para pegar uma estradinha de terra novamente, em aclive, até Campos do Jordão. Seguindo as flechas amarelas, adentramos a cidade até chegar ao Refúgio dos Peregrinos, da Marilda e do Edison. Mas sobre isso vou falar no próximo, que vai ser o último dia do Caminho.
Foto 11 - A galera de Jundiaí


quinta-feira, 21 de abril de 2011

8º Dia (Caminho da Fé) - de Estiva a Paraisópolis

A saída de Estiva (para quem estiver na Pousada do Poca) é à direita, descendo pela avenida. Algumas quadras abaixo viramos à esquerda, passamos ao lado da Rodoviária e seguimos em frente, contornando a curva à direita. Prosseguimos pelo asfalto até chegar à Rodovia Fernão Dias.

Foto 01
Atravessamos pela passarela (foto 01) e continuamos do outro lado, por uma estradinha de terra, que é onde a gente se sente verdadeiramente bem. Quando estamos ali, não há problemas, não há contas a pagar, não há dores... É só alegria, prazer, curtição. E o suor, o cansaço físico, a poeira ou o barro, o sol quente ou o frio do inverno são apenas componentes, pequeno preço a pagar por ter ao seu dispor a plenitude da natureza, a cordialidade e receptividade das pessoas e o vento no rosto.
Este é o trecho do Caminho onde encontramos muitas plantações de morango e não demora muito para avistarmos as primeiras. Chegamos rapidamente a uma ponte de madeira (foto 02), típica da região, para atingirmos em seguida o bairro Boa Vista.
Foto 02
A primeira vez que passamos alí, viemos com uma missão: localizar uma parenta da família que mora aqui. A Zezé, da pousada do Poca, havia nos orientado como chegar à casa dela e não foi difícil encontrá-la. O mais curioso é que as duas senhoras que moram na casa se chamam Margarida. Registramos o momento (foto 03) para nos lembrarmos sempre.
Algum tempo depois começa a subida das montanhas. Embora as estradas sejam boas e lisas, há trechos tão íngremes que foi necessário calçá-los, pois até os automóveis tinham dificuldade na subida em época de chuvas. O calçamento foi feito com placas sextavadas de concreto (foto 04), para torná-los firmes, possibilitando o trânsito de veículos sem risco de atolamentos ou deslizamentos indesejados.
Foto 03
Atravessando pastagens em meio às montanhas da Serra da Mantiqueira, com paisagens deslumbrantes, que nos fazem ter vontade de sempre voltar para cá, após 20 km chegamos a Consolação. Normalmente, mesmo chegando cedo, sempre paramos para almoçar na Pousada e Restaurante da Dona Elza. Ocorre que, como sabemos que o trecho é relativamente curto, sempre acabamos saindo um pouco mais tarde de Estiva... Nunca dormimos nesta cidade, não conhecemos os aposentos tanto da pousada da Dona Elza, quanto da Capivari. O povo da cidade - quiçá da região – é muito festeiro e, numa das passagens, fomos convidados por uma senhora, transeunte, para ficar e participar da festa que ia haver à noite. Infelizmente, temos sempre o tempo contado e não pudemos ficar. Mas vai chegar a hora em que não teremos pressa e vamos curtir todas estas festas que sempre vemos pelo Caminho...
Foto 04
Hoje, a saída de Consolação em direção a Paraisópolis, está asfaltada e o Caminho, antes de terra, agora segue pela estrada por alguns quilômetros. A saída do asfalto é à direita e devemos ficar atentos para não deixar passar a placa indicativa, que desvia novamente para a terra. Na verdade, se seguir pelo asfalto vai chegar também em Paraisópolis, mas este não é o objetivo, correto?  
Da última vez que percorremos este trecho, havia uma ponte de madeira, sobre o Córrego dos Azevedos que, sob a ação das águas de uma enchente, perdeu parte do apoio lateral, inclinando-se para um lado e impossibilitando o tráfego de veículos (fotos 05 e 06). Fomos com cuidado, caminhando mais do lado em que os suportes ainda estão de pé e atravessamos com tranquilidade. Vimos que a pé ou de bicicleta, ainda era possível passar com segurança. 
Foto 05


Foto 06

O percurso de hoje é um dos trechos mais duros do Caminho, só perde para o seguinte, quando vamos subir a incrível serra do “Quebra Pernas”, depois de Luminosa. O pessoal até se diverte, pois em pleno aclive dos mais acentuados, em que tivemos que empurrar a magrela (foto 07) ainda teve gente com muito bom humor para brincar (foto 08).
Foto 07
22 quilômetros depois, chegamos a Paraisópolis (foto 09). Na minha opinião, o que a cidade tem de melhor é o pastel do Mercadão.  Fica ao lado do Hotel Central, pertinho da praça principal, onde está a igreja matriz. Adentrando o Mercadão pela rua lateral da igreja, logo na entrada, à direita, tome um delicioso caldo de cana, cremoooso, como eu nunca havia tomado em lugar nenhum. Siga, ainda à direita e coma um pastel de carne e queijo excelente, gigante, capaz de servir de almoço... E depois, de sobremesa, mande fazer um de banana com açúcar, queijo e canela, que este é para saborear e não esquecer jamais...
Foto 08
A Pousada da Praça, ao lado da igreja matriz, merece destaque. É um local muito aconchegante e Jandira, a gerente, acolhe o peregrino com extrema atenção e cordialidade. Uma casa antiga, reformada, mas que mantém o estilo rústico e muitos dos portais e umbrais que já existiam e um piso renovado, com características próprias, muito bonito. O café da manhã categoria A, é completo, com frutas, pães, bolos, confeitos, cereais, iogurte, sucos, café e leite.

Foto 09
 Nesta viagem, porém, ficamos na Pousada Casa da Fazenda (foto 10), seis quilômetros à frente de Paraisópolis. Também é uma casa antiga, sede de fazenda, mas que conserva em sua totalidade, com muito esmero e cuidado, os móveis e a decoração existentes. Dirigida por um cavalheiro paulistano (foto 11), que faz questão de receber com classe e elegância, tem no silêncio e na tranqüilidade seus pontos fortes de atração, propiciando o merecido descanso aos peregrinos. A propósito, é bom lembrar uma máxima, que vale tanto aqui como em qualquer outro lugar: procure saber sempre antecipadamente preços e condições de serviços e alimentação, para evitar surpresas. 


Foto 10
 

Foto 11
 

P.S.: Contagem regressiva: estamos a rigorosos 30 dias da viagem a Compostela. Vamos fazer neste feriado prolongado nosso último treinamento de trilhas. Depois as bicicletas vão passar por um cuidadoso check-up, quando serão preparadas, engraxadas, enfim, tudo o necessário para ficarem tinindo prá viagem. Voltarei brevemente ao assunto...